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domingo, 20 de janeiro de 2013

Carga Tributária no Brasil - Primeiras Críticas

Paulo Werneck

Neste texto serão sistematizados os comentários e críticas recebidos até o presente momento em relação ao texto "A Carga Tributária no Brasil". Os nomes de quem enviou tais observações serão omitidos, em respeito à privacidade.

Quem desejar postar textos assinados sobre o tema sinta-se à vontade, lembrando apenas de manter o texto razoavelmente curto, adequado ao formato de blogue, e sem fugir do tema, "Reforma Tributária". Para contactar o blogue, usar o botão "Fale Conosco", no alto da coluna da direita.

Eis as observações recebidas, com as nossas respostas:

Sobre as fontes
"Não creio que os dados da OMC sejam fidedignos. Não concordo que tenhamos apenas uma carga de 30,4."
Os dados da OMC referem-se apenas ao valor do PIB e ao número de habitantes de cada país. Certamente não foi a OMC quem estabeleceu esses dados, mas a equipe dela buscou os dados que considerou os mais confiáveis de cada país, e que serão mais ou menos precisos conforme as instituições que os produzem em cada qual sejam mais ou menos competentes e isentas.

Os dados da cargas tributárias são oriundos da The Heritage Foundation (http://www.heritage.org/), uma organização conservadora norte americana. O motivo de escolha dessa fonte foi haver sido encontrada outra que apresentasse o índice de carga tributária em relação ao PIB para diversos países. Tendo apenas uma fonte para todos os dados consegue-se pelo menos um "erro" semelhante para todos, o que não ocorreria se houvesse uma fonte diferente para cada país. Se algum leitor puder sugerir uma fonte melhor, será extremamente benvindo.

De qualquer forma eventuais discrepãncias não influenciarão muito as conclusões, o que pode ser facilmente verificado, bastando para isso o leitor alterar o dado que considera equivocada na tabela e refazer os cálculos.

Da metodologia
"Acho que esses dados contemplam apenas a tributação direta, mesmo porque a maioria dos países mencionados primam pela tributação direta."
A "The Heritage Foundation" se refere ao "overall tax burden", ou seja, à carga fiscal global, logo não inclui apenas a taxação sobre a renda, que por óbvio seria inferior ao percentual apresentado, percental esse superior à alíquota máxima do Imposto de Renda.

Um leitor comentou que
"O cálculo é feito a partir das informações de arrecadação, não da alíquota nominal. Os dados de arrecadação são públicos, divulgados pelos Governos inclusive por conta da LRF. A Receita Federal, nos seus estudos, divulga os dados consolidados. Assim, TODOS os tributos, sejam diretos, indiretos, sejam impostos, taxas, contribuições, estão sim considerados."
Apesar de em princípio esse comentário apoiar as nossas tabelas, podemos observar que a "The Heritage Foundation" tem acesso à nossa carga clobal, mas não podemo afirmar que tenha obtido o valor correto nem que isso ocorra em todos os países estudados.

Da validade
"Carga tributária x PIB não tem sentido de forma isolada. O mesmo percentual pode ser baixo, se eu tiver segurança, saúde e educação de boa qualidade, ou alto, se eu tiver a contrapartida atual."
Embora não haja o que criticar ao comentário em si, não se aplica propriamente ao texto, cujo objetivo é apenas desconstruir a reiterada comparação entre a carga tributária brasileira e a dos países ditos "desenvolvidos", com a permanente omissão do componente tamanho da população, o que pode levar à formulação de uma proposta de reforma inadequada às necessidades do país.

Proposta de aperfeiçoamento
"Que tal acrescentar o custo de construir e manter uma escola, hospital, etc em cada um desses paises, em US$?"
É uma ótima idéia, pois levaria em consideração o poder aquisitivo de cada país: para obter o mesmo nível de qualidade da instrução, cada país precisaria gastar uma quantidade diferente de dólares por aluno, assim necessitaria comprometer um percentual diferente do seu PIB, inclusive tendo em vista o percentual de crianças e jovens em idade escolar em relação ao tamanho da população.

Mas, mesmo assim, será que as tabelas apresentadas não são suficientes para se contraporem à simples comparação entre carga tributária e qualidade dos serviços, reiterada ad nauseam na imprensa?

Da Relação com a Reforma Fiscal
"Acho importantíssimo esse debate, mas entendo que não se pode pensar em reforma tributária dissociada da reforma fiscal, arrecadação e gasto, a meu ver, estão intrinsecamente ligados."
Mesmo intrinsicamente ligados, este blogue analisará apenas a Reforma Tributária, apoiando, de plano, os esforços de quem se dedicar às demais reformas necessárias ao nosso país.

De qualquer forma, os governos podem gastar melhor o que arrecadam, mesmo sem aprovarem uma Reforma Tributária, e podemos passar a ter um Sistema Tributário melhor, com os governos continuando a gastar de forma inadequada os recursos que a sociedade lhes entrega para administrar.

Da Relação com o Desenvolvimento
"Outro ponto que não foi observado é que dos BRICs, justamente aquele com a maior carga tributária – Brasil, já que discordo dos números –, é o que menos cresce. Não que a carga tributária seja o único motivo para isso, mas não há dúvidas de que é um dos principais."
O desenvolvimento do país, conforme bem observado, não decorre apenas do peso da carga tributária. Alguns desses outros fatores serão oportunamente tratados no blogue, que está aberto à colaboração de todos.

Veja também:
Carga Tributária no Brasil.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Carga Tributária no Brasil

Paulo Werneck

Estamos acostumados a ouvir sempre a mesma ladainha, de que temos uma carga tributária de primeiro mundo, mas não recebemos os mesmos serviços por parte do Estado.

É verdade, mas é uma verdade enganadora, pois serve para desqualificar a gestão estatal - "são todos uns ladrões" - e até mesmo para justificar a sonegação. O detalhe sempre olvidado é o tamanho da nossa população...

Para termos algum termo de comparação, as tabelas abaixo apresentam, para alguns países, a população, em milhares de almas, o produto interno bruto, em milhões de dólares e a carga tributária, em percentual do PIB.

Os dois primeiros dados foram obtidos na Organização Mundial do Comércio e o terceiro da Heritage Foundation. A última coluna é resultado de uma mera operação aritmética que, usando os três dados anteriores, produz o volume de arrecadação por habitante, ou seja, quantos dólares os governos dispõem, por ano, para gastar com cada cidadão.

Os países foram selecionados da seguinte forma: os membros do G-7, que representam os países líderes economicamente, e os membros do BRICS, países que guardam muitas semelhanças com o nosso.

Eis a primeira tabela, com os membros do G-7:

País População PIB Taxação Carga per Capita
Alemanha 81.726 3.570.556 40,6 17.737
Canadá 34.483 1.736.051 32,2 16.211
Estados Unidos 311.592 15.094.000 26,9 13.030
França 65.437 2.773.032 44,6 18.900
Itália 60.770 2.194.750 42,6 15.385
Japão 127.817 5.867.154 28,3 12.990
Reino Unido 62.641 2.431.589 39,0 15.138

Nenhum desses países dispõe de menos que mil dólares mensais per capita para gastar com seus habitantes. Seria de se esperar que não tivessem mendigos, nem pessoas que morressem de frio no inverno, mas isso não acontece. As estradas funcionam, parece tudo muito arrumado, hospitais, escolas, e são realmente melhores que os nossos, mas mesmo assim eles tem lá os seus problemas.

Na segunda tabela, os membros do BRICS:

País População PIB Taxação Carga per Capita
África do Sul 50.587 408.237 26,9 2.170
Brasil 196.655 2.476.652 30,4 3.828
China 1.334.130 7.298.097 17,0 929
India 1.241.492 1.847.982 17,7 263
Russia 141.930 1.857.770 36,9 4.829

O Brasil, com essa carga "pesadíssima", dispõe de 319 dólares mensais para cada habitante, com um clima que destroi as construções, com população em crescimento (demandando mais escolas, mas hospitais, mais tudo), com um imenso território a ser cortado por estradas.

A Índia, com menos que isso por ano, tem que mostrar todo o exotismo, que poderíamos chamar de pobreza.

Não podemos basear uma reforma tributária no objetivo de reduzir a carga tributária, seria um tiro no pé. Mas podemos reduzir o custo das obrigações acessórias (para o contribuinte equivale a reduzir a carga) e aplicar melhor os recursos arrecadados (mas isso é reforma fiscal).

Veja também:
Pressupostos de uma Reforma Tributária.
Carga Tributária no Brasil - Primeiras Críticas.

Fontes:
World Trade Profiles 2012, da Organização Mundial do Comércio, disponível em http://www.wto.org/english/res_e/publications_e/trade_profiles12_e.htm.

Index of Economic Freedom, Heritage Foundation. In List of countries by tax revenue as percentage of GDP, disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_tax_revenue_as_percentage_of_GDP